25 de outubro de 2005

Entrevista Especial: TV Muro é 10!

Sandra Gomes


A menor emissora de televisão do planeta completa 10 anos de vida

A TV Muro (aquela que se tornou conhecida em todo o país e no exterior por ser a menor emissora de televisão do mundo e por transmitir a programação através de um monitor de TV que fica literalmente em cima de um muro) completa uma década, com a mesma irreverência e criatividade de quando começou. Mas também, com as mesmas dificuldades técnicas e principalmente financeiras.

Para quem ainda não conhece, a TV Muro é assim: Equipamentos pra lá de obsoletos, com vários anos de uso e que funcionam 'full time'. Quando param, é porque já deram o que tinham que dar. Os tripés das câmeras só as sustentam porque foram
adaptados com arame e os cenários são todos feitos de toalha de mesa e plástico. Uma estante velha de madeira aloja um amontoado de vídeo cassetes, um mini-sistem e uma precária mesa de áudio.

No aperto e na falta de lugar, ainda existe uma 'muroteca' (uma  espécie de centro de documentação com uma série de fitas VHS com  os programas gravados e que já foram ao ar). Do lado de fora da casa acoplado à uma antena, um transmissor, que fica acondicionado em uma pequena geladeira de isopor. O dispositivo foi achado no lixão. E é este equipamento que possibilita levar a TV Muro, canal 11 VHF de Sabará, para as casas vizinhas num raio de 50 metros. Um cabo que sai de um quarto  da casa, conecta a televisão de 14 polegadas, a mesma que transmite a programação para quem passa pela rua São Francisco. Outras gambiarras se espalham por todos os cantos da modesta casa, ou melhor, por todos os estúdios da da minúscula emissora. Esta é a TV Muro, amada por Chiquinho, o seu criador e motivo de orgulho para povo sabarense.

Apesar da parafernália, a 'sede' da TV Muro está novinha em folha! Passou por uma surpreendente reforma. A família de Chiquinho (mãe e irmã), que antes vivia no miúdo barracão cheio de trincas, agora tem um lugar ainda humilde, porém, mais digno para morar, graças a doações feitas por moradores da cidade. Chiquinho conta que a próxima reforma vai ser no próprio muro.

A imaginação e a intuição de Chiquinho impressionam. Cada cômodo da nova casa onde vive é também um estúdio,  em cada porta, há uma placa sinalizadora. Só para se ter uma idéia de como funciona  a cabeça inventiva do  dono da TV Muro, em mais uma de suas invenções, a cozinha (transformada em estúdio) entra na programação da emissora e ele explica como: “Aqui a gente faz o programa 'Cozinha Direta'. Nós ensinamos a ter cuidado com o gás”. Ao lado da cozinha, o 'Banheiro Direto', como o próprio nome sugere, é o local onde Chiquinho dá as dicas sobre economia de energia ao usar o chuveiro, por exemplo.

O rapaz idealizou a TV Muro aos 21 anos. Hoje está com 31 e carrega consigo, o mesmo sonho: “ser famoso”. Ele relembra ao lado de “Let’s go” (um amigo de infância e ex-TV Muro), quando e como tudo começou: “Em 1995, era tudo reciclado, ‘Let´s go’ lembra, né?”. Chiquinho olha para o amigo para que este confirme.

Passados 10 anos, Chiquinho ainda respira e vive de sua fantástica fantasia (a de fazer televisão e ganhar reconhecimento). Se hoje é assim, antes então esse inventor literalmente só usava a imaginação, com 'equipamentos' que ele mesmo fazia: “Era câmera de papelão, televisor de papelão e depois disso, eu comprei a primeira câmera VHS e transformei o sonho em realidade, que era colocar uma imagem da gente na televisão”.

A equipe da menor TV do planeta também é pequena. É composta por um cinegrafista, uma produtora, uma garota-propaganda e um repórter. Chiquinho que se tornou famoso pelo seu feito é constantemente chamado para participar de programas nas TVs de Minas, do Brasil e até já apareceu em emissoras internacionais, conta a este blog, que todas as vezes que é convidado por outras emissoras, não perde nem um olhar, quer saber de tudo e acaba aprendendo muito: “Quando a gente está sendo entrevistado, a gente observa todos os cantos para ver como é que funciona...”, diz.


Francisco, um dono de TV bem diferente...
Ele não é o dono do mundo e nem tem pretensão de ser - ao contrário -, o que mais deseja é cativar as pessoas e ficar conhecido. É apenas um dono de TV diferente. Diferente até demais do seleto grupo de milionários do ramo televisivo no Brasil. Até mesmo porque não perde o sono com os picos de audiência. Tampouco com o lucro (que nunca teve).

O criador da TV Muro também não possui nenhum conhecimento técnico para fazer TV. O fato é que faz e se preocupa sempre com o caráter educativo do que vai ao ar.

A melhor forma de 'decifrar' Chiquinho é lembrar de diversos personagens da ficção e da realidade: ele seria mais ou menos assim: a eterna vontade de Peter Pan em ser criança, a alma sonhadora de Dom Quixote, a criatividade de Júlio Verne acrescentada a uma pitada de Glauber Rocha, que vivia 'com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça'. Mesmo com estas características tão semelhantes,  o rapaz certamente não nunca ouvira falar em nenhum desses personagens reais e fictícios citados.

O interessante é que ele nunca usa a 3ª pessoa quando fala da TV Muro. Daí nota-se sua consciência de que o trabalho em equipe é fundamental para fazer o que se propõe. Chiquinho ficou surpreso e bastante animado em saber que a entrevista seria para um blog (embora o rapaz não soubesse direito o que era). Ficou esperançoso de tornar-se mais conhecido ainda, já que expliquei-lhe que a internet não tem fronteiras...
Entrevista Especial
“Boa noite pessoal! Para você que está subindo e para você que está descendo, pare e me veja aqui no muro. Antes era preto e branco, agora é à cores. E nós vamos falar para você o que temos hoje... " Todo dia é assim que tudo começa. "Aí o Jorge fala: Um rapaz foi pego em ‘fragante’(sic) fazendo cocô atrás da igreja! Aí eu entro com o personagen Paulo Paulada: É um absurdo gente, com o patrimônio histórico! Sai uma pessoa de uma parte de Sabará para vir atrás da igreja para cagar, que pouca vergonha... solta a música do Titanic Jorge!”. Pronto, com essas palavras acompanhadas de imagens Chiquinho começa a apresentar o 'Jornal Legal' da TV Muro.

Com a alegria, hospitalidade e o entusiasmo de sempre, Chiquinho e a família receberam a jornalista deste blog para esta entrevista na 'sede' da TV Muro, que fica na rua São Francisco, no centro de Sabará-Minas Gerais.

Como é seu dia a dia na TV Muro? Você e sua equipe têm um roteiro a seguir?
Não, tudo tá na minha cabeça. Eu falo assim, vamos pra rua e o que a gente vê sai filmando. Já peguei alguns “fragrantes” (sic). Um dia eu tava filmando lá na praça e, de repente (Chiquinho faz um som com a boca), estoura um cano e voou água para tudo que era lado. Eu peguei na hora, eu tenho isso tudo aqui. Peguei na hora!

O que você gosta de ver nas outras emissoras?
O que mexe com a emoção da gente. Pessoas humildes na televisão sabe, pessoas que têm oportunidades na vida. Igualzinho ao Gugu que descobre novos talentos sempre.

Você já ouviu falar no Glauber Rocha?
Não.

Você se inspira em alguém quando faz a sua televisão?
Não tenho uma inspiração exata não, sabe, mas eu gosto de trabalhar em prol da comunidade. A inspiração minha é de Deus. A inspiração geralmente é o programa do Ratinho, do jornalismo da Globo. Lendas de Sabará (documentário produzido pela TV Muro) é inspirado em Contos da Meia Noite, que é da Rede Minas (emissora afiliada à TV Cultura). É um pouquinho de cada emissora. A gente tem um contrato com a STV (Rede SescSenac de Televisão). Eles mandam material para ser passado na TV Muro todo mês. E eu não mandei nada ainda porque eu não tenho como passar em mini-DV.

Quem faz a TV Muro hoje e quais os programas?
Eu não posso deixar de colocar o nome do Jorge cinegrafista, que há 10 anos está comigo. É ele quem mede a audiência para mim no portão... (É através de um pequeno buraco no portão que é contado o nº de pessoas que estão na rua assistindo a TV Muro). Os programas são: 'TV Murinho', 'Cine Muro', 'Jornal Legal', 'Programa do Chiquinho', 'Domingo do Fuxico' (que a gente fala das fofocas de Sabará), 'Cozinha Direta' e 'Banheiro Direto'. Agora deve vir o 'Esporte do Muro' e, talvez, o 'Jornal Legal' em duas edições.

Como era o Chiquinho há 10 anos quando começou a TV Muro e como é o Chiquinho dono de TV hoje?
A gente ganhou muita amizade de pessoas que eu nem imaginava conhecer: de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo, Pernambuco... Gente que viu na televisão e veio conhecer o Chiquinho e a família do Chiquinho. Eu queria ficar famoso e não rico. Muita gente fala, Chiquinho o que adianta você ter nome e fama e não ganhar dinheiro, você continua pobre. Aí eu falo: mas a minha intenção não é ficar rico é fazer amizade com pessoas de fora. Porque eu não posso viajar pelo mundo, mas através das emissoras eu posso. As pessoas me vêem lá do outro lado do mundo, aí vêm me conhecer. E isso é interessante, eu recebo cartas e fico muito feliz.

Se tivesse que começar tudo de novo, você começaria?
Ah, não. Dá trabalho demais. Pra chegar a ter um nome desses...

Você sabe que dono de TV tem muito dinheiro e poder... Você é dono de televisão, mas vive com dificuldade ...
A TV Muro é bem social. E vai continuar sendo a menor TV do mundo... Eu não quero ficar rico.

Qual a diferença do cidadão Francisco para o personagem Chiquinho da TV Muro?
O Francisco que é meu nome mesmo é aquela pessoa que trabalha no seu dia a dia. É aquela pessoa que vai à missa, é aquela pessoa que está trabalhando em escola com os alunos na reciclagem. E o Chiquinho é a TV Muro. Então tem um de um lado e um de outro. Mas acaba que no final vira pizza (risos).

PLANOS...

Quais os planos para os próximos 10 anos da TV Muro?
Se Deus der vida e saúde, que eu creio que vai dar, é a gente transformar a TV para o formato digital. Mas vai continuar sendo a menor do mundo. Só vai melhorar a qualidade das suas imagens. Sabe, edição com efeito especial...

E na programação?
Continuar com a TV Murinho para as crianças, a gente vai melhorar a qualidade. Eu queria que as pessoas entendessem que a TV Muro não é comunitária. Ela é social. Ela é aberta ao público, ela não precisa de dinheiro. Graças a Deus é o chup-chup (espécie de sorvete no saquinho de plástico) que mantém a televisão. (O chup-chup é o 'patrocinador' da TV Muro). Não precisa de dinheiro para eu colocar propaganda. E para transformar em uma televisão de verdade tem que mexer com papel, imposto... Tem uma série de burocracia.

(Boa parte da entrevista foi feita na rua, que é íngreme, em frente à TV Muro. Durante todo o tempo, subia e descia gente que mexia com Chiquinho e ele fazia questão de cumprimentar um por um, interrompendo a nossa conversa várias vezes).

Mas você tem uma responsabilidade nessa televisão, deseja mudar alguma coisa no mundo com ela ou isso nunca passou pela sua cabeça?
Passa, na questão do trânsito por exemplo, a gente queria que tivesse um sinal (semáforo) perto da escola. Aí, através da televisão, nós conseguimos. Nós pedimos que colocassem asfalto aqui no morro, através da televisão conseguimos. Alguns anos depois, ganhamos o ônibus. Pedimos e trancaram a parte de trás da igreja porque estavam de madrugada fazendo cocô lá... (Chiquinho fez um programa esclusivo sobre este último assunto).

Você já foi notícia em jornais de circulação nacional, em programas de grande audiência na TV brasileira e inclusive, na Rede ZDF, que é a maior TV Pública da Alemanha, já virou filme... Como é isso?
É uma coisa que eu nem imaginava acontecer. Porque as pessoas falam que eu sou doido em colocar a televisão no muro, que isso não ia dar futuro pra mim não... Aí eu falei: a TV Muro quando sai na mídia traz turista para a cidade. A TV Muro agora é ponto turístico de Sabará. É ponto turístico! Muito turista me pergunta: Você que é o Chiquinho da TV Muro? Terça-feira recebemos um cara da Argentina, que me viu na Ana Maria Braga (em 2001). Ser notícia me ajuda. O Jô Soares me deu equipamento, a Rede Globo me deu equipamento apesar de ser VHS... (chega um outro rapaz e cumprimenta Chiquinho, que interrompe a entrevista e me apresenta o amigo). Sandra, este é o Dênis que vai fazer na TV Muro, o 'Muro Espetacular' ou o 'Esporte no Muro'. (Fica indeciso quanto ao nome do novo programa).

Dênis Martins já participou da TV Muro antes e hoje trabalha como voluntário. "Faço um trabalho com crianças e jovens de até 18 anos através do esporte pra não ficarem pensando bobagem e o Chiquinho sempre está dando apoio pra nós”, afirma Dênis. Chiquinho não sabe ainda quando o programa entrará no ar mas completa: “Acho legal levar isso para a TV porque o Dênis faz o mesmo trabalho que eu - social -, pra valorizar as pessoas. Os jogos, as peladas vão ser transmitidas aqui do Muro. Vai ser mais legal, o pessoal vai assistir aqui em casa”, anima-se.

E quanto ao filme 'TV Muro' foi uma boa fazer?
Foi uma boa pra eles, pra mim foi triste. Porque foram trinta mil reais na roda e eu ganhei só dois mil e quinhentos reais (pára de novo e cumprimenta outro passante). Falaram que era um projeto da Petrobrás para concorrer em todo Brasil e que era muito difícil de ganhar...
Mas então você sabia disso antes de aceitar fazer o filme?
Sabia, mas eu podia ter ganhado mais um pouquinho, pelo menos para ter um computador... (“Let's Go” - o da foto ao lado - interrompe a conversa e diz: “Esse trabalho que o Chiquinho faz, praticamente você não vê em lugar nenhum de Minas Gerais. Um rapaz como ele, a gente tem que dar valor, tem que apoiar, porque sem apoio não tem como fazer nem crescer. Ele tem muita inteligência em fazer a TV Muro”).

Qual é o seu maior sonho?
Trabalhar em uma televisão de verdade.

E até hoje ninguém te deu oportunidade?
Já deram em Juiz de Fora (MG). Fiquei seis meses trabalhando na TV Bandeirantes. Eu era apresentador de um programa que chamava Show Mix e que ia ao ar todos os domingos. Fiquei super feliz, porque eu comecei dar autógrafos lá em Juiz de fora...

Porque ficar conhecido é tão importante para você?
É gostoso, sabe. É igual você estar no Big Brother. Você faz amizade com as pessoas, naquela casa (...). A gente ficando conhecido, quando chega num lugar, não vão achar que você é um bandido. Vão achar que você é um artista.Você chega a qualquer parte do Brasil e é conhecido. Do mundo eu não digo, porque eu tenho medo de andar de avião... A TV Muro hoje alcança três casas. Antes, quando eu morava na casa de cima eram 18 casas. Aqui tem muito morro, mas um dia eu cheguei ao Rio de Janeiro, com o Fábio e a esposa dele (Fábio é diretor do filme TV Muro), aí um rapaz me parou na rua e perguntou: “Ei mineiro, como está a televisão lá em Sabará?”

Se TV Muro não dá lucro nenhum, como você se sustenta?
Eu vivo de bico, né? Tô de licença na prefeitura. Eu gasto muito, eu tô apaixonado por uma moça lá do Vale do Jequitinhonha (região do norte de Minas) e acaba atrapalhando o amor com a TV Muro. E eu não posso misturar... O nome dela é Élcia Rodrigues. Ela tem ciúmes de mim, porque tem medo que eu arrume outra mulher e eu tenho ciúmes dela porque não sei o que ela está fazendo lá... Eu já não agüento mais, telefone é muito caro, um cartão é R$5, 50. Eu ganho um salário mínimo (R$300,00). Se uma televisão dessa estraga (aponta para o muro) são duzentos reais!

MURO ITINERANTE...

Chiquinho faz oficinas de brinquedos reciclados, projeto de oficinas de vídeo e ainda tem um projeto de sair com a TV Muro para outros lugares. "Quero viajar com o projeto e colocar a TV na rua descer do muro", diz.

Alguém já te chamou de maluco por ter uma TV em cima do muro?
Já!

Isso te incomodou?
Eu não ligava. Eu achava que toda crítica era conveniente para mim...

Alguém em algum momento desses 10 anos da TV Muro já te censurou?
Todo mundo aqui gosta do que faço. Só uma vez que o pessoal pediu para não ficar falando de política, senão atrapalhava meu projeto. Ninguém gosta que eu envolva com política não. Aí eu parei.

Mas você não fala de política por que você não quer ou por que te pediram para não falar?
Ah, para não misturar mesmo...

Qual o apresentador de TV que você mais gosta?
Eu gosto do Silvio Santos. Eu acho ele verdadeiro, ele não é falso, não tem uma pressão por trás, ele não é manipulado para fazer aquilo. Ele é o Silvio Santos e eu sou o Chiquinho. Eu não tenho ninguém atrás que manipula. Eu sou solto, sou livre, eu sou de sagitário.
LINK COM OUTRAS EMISSORAS...
Um dos desejos de Chiquinho é fazer um 'link' (transmissão) da TV Muro com outra emissora. "Eu tenho vontade que alguma emissora de Belo Horizonte faça ao vivo lá do estúdio comigo... A gente fez a missa ao vivo da igreja de São Francisco que é aqui do lado. A igreja tava cheia e eu transmitia com o link em cima da janela. Tudo autorizado pelo padre. Já pensou se um dia abrisse um link aqui, que legal... Eu queria ter esta oportunidade um dia. A gente podia trazer um entrevistado aqui...

Você fez o 2º grau?
Fiz o segundo grau, fiz teatro, curso de cinegrafista, curso de fiscal ambiental, porque eu adoro o meio ambiente e curso de computação.

Você tem vontade de fazer um curso superior?
Tenho vontade de fazer jornalismo.

Como você se mantém informado sobre as coisas que acontecem no país?
Vendo os noticiários da TV aberta.

Você gosta de ler jornal?
Leio muito, adoro. Mas a televisão é melhor porque eu vejo as imagens.

Quantas matérias vão ao ar durante o jornal legal?
Olha são muitas e como aqui tá sempre subindo e descendo gente, não podem ser só 30 segundos de matéria. A gente tem matéria até de 2 horas e as pessoas ligam pedindo matéria.

O que você acha do Presidente Lula?
Eu acho que ele tem que parar de viajar um pouco e preocupar com o que está acontecendo aqui com a febre aftosa... Ele podia ficar mais por aqui, ele gasta muito dinheiro com viagem.

Você já falou do Lula na TV Muro?
Nunca falei.

Qual recado você mandaria para ele?
Para pensar mais nas coisas que acontecem dentro do nosso território nacional e prestar atenção para o que está acontecendo. Na inflação, nos mensalões da vida.

Se fosse fazer um pedido para o Presidente, como cidadão, como eleitor qual seria?
Olha, nós votamos em você, confiamos no seu taco, vai vir a próxima eleição faça um bom trabalho para que possa ser reeleito, senão... Não tem como.

7 de outubro de 2005

Referendo Popular - Assunto de Gente Grande, Que Nada!

Sandra Gomes

Elas ainda não têm idade para votar no Referendo do dia 23 de outubro, mas já discutem, dentro de sala de aula, a importância dessa votação. E, depois de aprender a lição, ainda levam para casa o tema. São crianças, que, aos poucos, vão descobrindo que a cidadania é um direito e um dever de todos.

Composta por conquenta alunos, uma escola de ensino fundamental, no bairro Jaraguá, na região nordeste de Belo Horizonte está levando ao conhecimento dos alunos o que é o Referendo Popular, que acontecerá em menos de quinze dias em todo o país. São crianças que, em sua maioria, estão em situação de risco social. Elas passam a maior parte do tempo na escola Morada Nova Casa da Criança.

Terminadas as atividades do dia, os alunos levam para casa o que foi ensinado, discutido e aprendido. "São crianças que, há muito tempo, vêm relatando casos de violência, sofridos por elas ou por parentes. É um assunto que elas têm que participar. E elas são capazes de conversar em casa, de ter opinião, de construir uma boa cidadania", afirma a coordenadora da escola, Marília Horta.

Para Marília, essa é uma discussão importante, por isso resolveram trabalhar o tema em sala. A partir do que foi proposto aos alunos, o assunto foi crescendo e tomou forma. O que pode ser confirmado no mural da biblioteca da escola, que ganhou ilustrações e até slogans, como: “Digite SIM para NÃO e NÃO para SIM”.

No próximo dia 23, pais e parentes de milhares de crianças como essas em todo o país vão poder decidir se querem ou não a comercialização de armas de fogo e munição no Brasil.

Taís Barbosa, de 7 anos, explica: "O Referendo é uma votação para ver se a pessoa quer ou não a venda de armas... Se ela votar Sim é porque ela não quer a venda de armas. E, se votar Não, ela quer a venda de armas". Diz com a segurança de quem já entendeu “tudo” sobre o Referendo.

Os alunos da pequena escola como a menina Taís, ainda vão levar alguns anos para se tornarem eleitores. Mas já exercem de alguma forma a cidadania e o que é importante: sabem o que significa o Referendo Popular e até como votar. Em contrapartida, mesmo com as campanhas veiculadas no rádio e na TV e out-doors das frentes parlamentares contra e a favor do comércio de armas no país é fácil notar que grande parcela da população, não têm noção do que significa votar “Sim” ou “Não” no dia 23 de outubro.

Num grande equívoco, muitos acham que a votação será sobre o desarmamento. São pessoas que não sabem - ou parecem não lembrar - que o Estatuto do Desarmamento da População foi aprovado no ano passado e, que portanto, já existe uma legislação que restringe o uso de armas de fogo no país.

Diante de tanta confusão e desinformação, a decisão está nas mãos, ou melhor, nos dedos de 122 milhões de brasileiros cheios de dúvidas, que nas respostas dão “chutes” errados quando questionados sobre a pergunta: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?".

E, se até o dia da votação, os brasileiros não conseguirem entender a pergunta, o que se espera é que se tenha ao menos 'sorte' na escolha.

Se o eleitor for contra o comércio de armas no Brasil deverá teclar o número 1, que na tela corresponde ao Não. E se for a favor do comércio de armas e munição deverá teclar o nº 2, que corresponde ao Sim. O voto é obrigatório para maiores de 18 anos e facultativo para analfabetos maiores de 70 e menores de 18 anos.

2 de outubro de 2005

"Falta o Papelzinho"

Sandra Gomes

No último sábado, o jornalista Paulo Henrique Amorim esteve em Minas, para fazer o lançamento e o debate do livro “PLIM PLIM - a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, escrito por ele em parceria com a jornalista Maria Helena Passos. O debate foi na livraria Leitura do Pátio Savassi, em Belo Horizonte.

O livro trata das fraudes nas eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982, quando militares, SNI (Serviço Nacional de Informações) e Polícia Federal escolheram a empresa Proconsult para apurar os votos e dar a vitória a Moreira Franco (candidato dos militares). De acordo com Paulo Henrique Amorim, as organizações Globo - jornal e TV – “coonestaram” o resultado fraudulento e prepararam a opinião pública para a fraude, que se tornou possível com a ajuda de uma parte da justiça eleitoral. Desta forma, quase que Brizola não assume o governo do Rio. Quase, porque no fim, a eleição foi possível "na lei e na marra".

Plim Plim é o primeiro de uma série de livros que Paulo Henrique Amorim pretende escrever. Ele já adiantou que o próximo será sobre o regime militar e a história da indústria da televisão no Brasil. E deixa claro que a imprensa escrita no país é extremamente conservadora e cada vez mais opinativa, “as reportagens são cada vez mais opiniáticas”, explica. Amorim diz que não existem mais reportagens longas e a forma que hoje é possível falar e encontrar espaço para alguns assuntos é através de livros.

Preocupado com a eleição que é feita hoje no Brasil, o jornalista defende o tempo todo, a idéia de que “não é seguro o voto por computador. A eleição no Brasil pode ser perfeitamente fraudulada. Ninguém conhece a caixa preta dos institutos de pesquisa. Brizola em seu tempo já defendia e questionava: "falta o papelzinho!". Brizola se referia a comprovação material do voto.

No debate com estudantes, jornalistas, pessoas comuns e representantes do PDT Partido Democráico Trabalhista) que lá estiveram Amorim lembrou que "depois da eleição roubada" de Bush em 2000, criou-se uma comissão privada de especialistas liderada por homens “públicos respeitados” nos EUA, como o ex-presidente Jimmy Carter, do partido democrata e o ex-ministro James Baker, do partido republicano. Essa comissão evitaria novas fraudes mudando o sistema de eleição. “No México e Venezuela existe há muito tempo, o voto eletrônico e o papelzinho tão defendido por Brizola”, diz. Desta forma é possível fazer uma recontagem de votos.

Falou sobre a tradição que o Brasil tem de um pensamento político trabalhista, desde a República Velha. E emenda que “o trabalhismo não nasceu em São Bernardo e não nasceu com o PT (Partido dos trabalhadores). Tem várias origens, uma delas está no Rio Grande do Sul, com João Goulart e o próprio Leonel Brizola”.

Lembrou à platéia presente que, no episódio da fraude eleitoral na eleição para governador do Rio em 82, tanto o TRE, quanto a Proconsult e a apuração dos diversos órgãos da Rede Globo começavam a apurar primeiro por onde Moreira Franco era forte, para criar o clima de “já ganhou” e já acostumar a opinião pública para a idéia de que Brizola ia perder. “O fim da história, seria o fim da história também que deu a vitória a Bush. E na Flórida, todas as reportagens mostraram que quem ganhou foi Al Gore”, disse ele.

Quando questionado sobre as CPIs, afirmou que estaria sendo leviano se apontasse um culpado, mas que suspeita “que o grande fornecedor de Marcos Valério foi o Daniel Dantas”, banqueiro e da área das telecomunicações. "As CPIs não vão apurar, mas confio no Paulo Lacerda” (diretor-geral da Polícia Federal). Mencionou o bom trabalho que a Polícia Federal está fazendo no país “apesar de também ter a sua banda podre”, ressaltou.

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