9 de julho de 2008

O Mostruário de George


Sandra Gomes

George é vendedor de artigos hippies na praia de Araçaípe em Arraial D'Ajuda - BA. Nos conhecemos em março de 2007, quando o garoto tentava me vender alguns colares. Debaixo do sol a pino, aquele mostruário devia pesar no mínimo uns seis quilos.
Curiosa por saber mais sobre o pequeno vendedor de colares multicoloridos, ofereci-lhe um suco. Ele recusou. Certamente para não 'dar mole' ao ser visto com certas intimidades com clientes, por um dos garçons que estavam por perto. Mesmo com aquele calor que só a Bahia tem, George que devia estar com a garganta seca, nem se atrevia a olhar para o meu suco de umbú. É claro que só depois, imaginei o que era óbvio: ele cumpria regras. Pois se aceitasse bebida ou comida de turistas, provavelmente seria 'expulso' ou impedido de 'trabalhar' naquele lugar invadido por portugueses e agora, ainda  por franceses, italianos e por esta jornalista brasileira debruçada em uma cadeira de sol.

Eu perguntava coisas e George com um jeito de quem não tinha tempo para muita conversa, explicava: "ando todo dia de uma ponta à outra. Vou e volto várias vezes". A extensão da praia que ele se referia, era realmente grande. A areia, fofa e quente o suficiente para derreter meus pés acostumados com meia e sapatos fechados.

O garoto me dissera que morava com a mãe, o padrasto e alguns irmãos no Arraial. O pai "verdadeiro" tinha problemas com a bebida.
Perguntei se frequentava a escola. Segundo o garoto, estuda de manhã, mas exatamente naquele dia, "não teve aula" na instituição pública que, claro, levava o nome da famíla 'Magalhães' taquele território baiano. Ainda me contara que todos os dias, antes de sair para "trabalhar" tinha algumas obrigações como limpar o "cocô" do cachorro em casa.

(foto: Sandra Gomes - arquivo pessoal mar/07)

No outono de 2008 voltei à esta mesma praia e reencontrei George. Agora, um pouco mais crescido, com um mostruário menor, menos colorido e menos atrativo do que aquele que eu havia presenciado no ano anterior. O pré-adolescente antes e agora quase um rapaz tampava o mar à minha frente com todas aquelas novas peças feitas de coco e de osso, amarradas com linhas coloridas.

Iniciamos então um novo diálogo. E, decididamente, o nativo continuava sem tempo para responder às minhas 'curiosidades'. Porém, ficava ali bem na minha frente para conseguir a venda e reclamava do dia que segundo ele, "não estava bom". E agora era a vez dele perguntar em tom amigável: "Hoje você vai levar uns dois pra me ajudar, né?" 

Antes de respondê-lo, mais uma vez fiz a antiga pergunta: "E a escola, não foi hoje não?" George pacientemente respondera de uma maneira um pouco diferente que da última vez: "Eu já fui hoje cedo, mas agora tenho que vender esses colares... Então, vai levar o vermelho ou o verde? Se levar o conjunto com o brinco faço por R$30". 

Além das peças de bijoux, o adolescente levava consigo, algo ainda maior, maior do que tudo que vivera até agora: o sonho de um dia se tornar advogado.

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